domingo, 6 de janeiro de 2013

Meu escritório ao ar livre

Já falei antes do espaço Calouste Gulbenkian neste blog, e provavelmente no meu facebook. Falo sem ressalvas de que esse é o meu lugar preferido em Lisboa. Adotei-o como meu escritório "off house", não só por ser super agradável mas também por me ajudar a ficar mais tempo offline mesmo usando o ipad ou o laptop. Nele desenvolvi algumas técnicas-infalíveis-para-estudar-sem-dispersão. A primeira delas é me dispersar em momentos específicos, movimentando-me de um canto a outro do jardim, do Museu de Arte Moderna ao Prédio Sede, de uma cafetaria a outra (aos leitores brasileiros aviso que aqui em Portugal é assim mesmo: ca-fe-ta-ria). E como hoje estou abusando dos hífens e palavrinhas estrangeiras, lembrei de uma pintura que vi lá, no segundo piso do MAM, entre as obras da coleção permanente da Fundação Calouste: Letras e Pente, de Lourdes Castro.

Essa é uma imagem que representa bem como me sinto, como encaro as tarefas que tenho à frente, de selecionar as palavras, ou mesmo as letras "certas". As que se encaixam perfeitamente no texto - quais usar para um artigo que deve ser científico? Quais para um texto literário? Do que posso usar e abusar no blog? Escrevo em inglês, português ou francês? Porque uma das peculiaridades do programa doutoral do qual faço parte é esse intercâmbio de línguas. O último paper entreguei em inglês, e minha professora portuguesa me perguntou por que não escrever em francês, já que semestre que vem irei estudar na França. É esperado que eu consiga me movimentar bem entre os três idiomas, sem falar do sueco - que pretendo ter pelo menos alguma familiaridade se eu for mesmo desenvolver parte da pesquisa de campo na Suécia.

Minha vida está então bem móvel. Deve ser por isso que não consigo estudar direito dentro de casa, desse apê pequeno que divido com meu marido e minha filha até fevereiro. É suposto que eu estude diariamente, que eu tenha um espaço estável para o exercício do pente fino. Preciso ter uma rotina e um local de trabalho onde eu consiga organizar de alguma forma toda essa mobilidade. O Calouste não é um espaço que me faça relaxar a ponto de me sentir "em casa", e não oferece a estabilidade ideal - já que há sempre pessoas diferentes indo e vindo, exposições temporárias, um enorme jardim colorido que varia obviamente com o clima do dia. Mas, toda essa instabilidade acabou me cativando e cá estou, organizando minhas palavras.

Ontem, lendo um texto em inglês e outro em francês, consegui passar 6 horas seguidas percorrendo o meu escritório off house. Um passarinho fofo, que parecia um dos angry birds, com o peito estufado e alaranjado, veio me encarar. Pousou na mesa de concreto onde eu estudava e ficou me olhando, até voar para cima de mim, dar uma voltinha e retornar com um parceiro. Os dois ficaram me encarando, chegando perto aos pouquinhos, até eu concluir que estava invadindo o espaço deles sem nem ao menos oferecer umas migalhinhas de pão, levantar-me e trocar de mesa. Eles ficaram lá bicando uns restinhos que eu nem tinha reparado. Mas, aproveitei para tirar umas fotos e dar uma breve pausa-para-o-café.

Café mesmo fui tomar lá pras 16 horas, na cafetaria do Museu Calouste, onde muitos turistas, visitantes locais e estudantes conversavam. Fiquei admirada com a minha atual resistência a barulhos alheios enquanto leio - e eu lia em francês! Mas fiquei também muitíssimo cansada. Cheguei em casa aliviada por poder deitar numa cama (durinha mas limpinha) e assistir um programa besteirol no History Chanel. As vezes bate uma melancolia, uma tristezinha, uma saudadezinha de um escritório caseiro como eu tinha no Rio. É cansativo ter que lutar por uma mesa com os passarinhos, os turistas, os visitantes e outros estudantes... Mas é só isso mesmo: cansaço. De resto, estou bem feliz por poder usufruir de um espaço tão interessante e de uma vida móvel como essa!